Julho 2, 2008

Gentileza de dar inveja

 

O rapaz enfiava o dedo pelo buraco do boné ralado, que não escondia os caracóis castanhos com pontas descoloridas por água oxigenada, e tentava coçar a cabeça, enquanto apontava o queixo para o amigo, também de uns 20 anos:

 – Mano, só tenho dois e setenta. Vê vinte centavo aí pra interar o maço… tem a manha? – dizia, já contando as moedas, logo depois de pedir um Malboro para a caixa.

 Antes mesmo de saber que o outro tinha lá uma moeda de vinte e cinco, foi interrompido por um homem, talvez uma década mais velho, que voltava ao caixa para entregar um comprovante de pagamento à atendente. Falando baixo, carregando uma jaqueta, uma papelada que parecia trazer do trabalho e um olhar calmo, tocou no braço no fumante:

 – Boa noite, com licença, preciso para entregar este papel para a caixa, tudo bem?

 Diante de um aceno, o moço fez o que tinha que fazer e emendou, simpático:  – Obrigado.

 – Box ou maço?

 A pergunta atravessou os pensamentos do loiro do boné velho, que conservava a testa franzida e com uma sobrancelha no alto e a outra perto do olho. Sem responder, desviou a cabeça em direção ao colega:

 – Ou, você viu isso? Mano, que cara gentil. Nunca vi…

 – É, vai ser gentil assim no inferno… – disse o outro, rindo.

 – Box ou maço, colega? – insistiu a funcionária.

 – Vai maço – e entregou as moedas.

 – O box tá só mais dez centavos, vai um?

 – Ah, peraê – e, para o colega: – Tem mais cinco aê?

 – Toma – e deixou a moeda fugir e rolar pelo chão.

 Um senhor, que escolhia um pé de alface, se esforçou para correr atrás da danada, que não parava. Depois de uns metros, deu um pisão nos cinco centavos, como quem mata uma barata, abaixou e voltou trazendo o troféu:

 – Olhe, moço – entregando ao jovem.

 Ele pegou a moeda, deu as costas, pagou a caixa, abriu o box, caminhou e se preparou para pitar o branquinho, já quase na saída. Olhou para dentro e, já com o cigarro aceso, entre os lábios, viu o senhor da moeda indo ao caixa. Deu uma corridinha, arrastando os chinelos:

  Oww, senhor, valeu pela moeda, hein… boa noite aí.

 A caixa olhou para mim, a próxima da fila, e disparou:

  Esse moleque nunca me falou bom dia. Tô é besta. Então só faltava um exemplo?

Junho 11, 2008

Convite ao âmago

 

 Senti uma doce melancolia esta semana e comentei com um amigo que essa sensação era arauto do período menstrual. Ele, como muitos fariam, retrucou comemorando o fato de ser homem e, portanto, de estar livre deste incômodo. Também mulheres agradeceriam, pudessem se safar das emoções e reações que a fase traz.

Sempre gostei de menstruar – me sinto poderosa, lembrando (mesmo que inconscientemente), a capacidade de fazer a mágica da vida. Ainda assim, até pouco tempo, me orgulhava em dizer que não sentia nada neste período do mês. Nada de seios sensíveis ou lágrima rolando. Não sei se não sentia ou se negava sentir. Até porquê, homens (mas não só eles) não têm a menor idéia do que estes hormônios fazem e, portanto, acham que toda essa história de menstruação uma bobajada de mulher chata e sensível demais. Não queria ser uma mulher malinha, ranheta… Lembro de uma amigo que, na época da TPM da namorada, achando estar sendo legal com ela, a olhava com uma certa piedade, como se ela estivesse adoentada, já que ela demonstrava estar mais delicada.

Nos últimos tempos, passei a encarar o período como um convite a uma viagem interna. As alterações hormonais alteram o equilíbrio do corpo de modo que me sinto conectada às entranhas, ligada ao útero, a um lugar oco onde tudo faz eco. Lá no buraco onde cai Alice todo mês, fico pequena e, lado a lado com as vísceras, emoções e cenários vividos ficam grandes, barulhentos. A dose extra de progesterona, que prepara a mulher para engravidar, impõe uma percepção alterada da vida. Se rejeitada, traz irritação e sensação de solidão, pela insatisfação de ser empurrado para dentro de si. Se acolhida, esta condição traz uma sensibilidade apurada e uma introspecção silenciadora, mas confortável.

Dá para sorver essa sensação, curtindo as emoções à flor da pele, gole a gole. Encarar a TPM sem disfarces equivale a enfrentar o desafio de morar sozinho sem encher a casa de amigos que gargalham tomando cerveja. É morar sozinho assistindo um filme sem ninguém do lado e estar feliz com o espaço, com o silêncio, com as escolhas só suas. É aproveitar esta viagem psicotrópica de origem hormonal.

A medir pela experiência própria e das amigas, diria que a gente pode passar a vida toda negando que estas alterações existem, embora seja mais saudável aceitar as alterações e senti-las profundamente. Não sinto necessidade de chorar no trabalho ou de bater em alguém – se alguém está neste ponto, medicamentos, exercícios e terapias são recomendados e ajudam a equilibrar essa equação. Há, no entanto, um ponto equilibrado, em que é possível se emocionar, ver as coisas com óculos de sensibilidade, aproveitar um abraço e ter bom-humor. Hoje à noite, debaixo da coberta, assintindo um episódio da minha série favorita, vou curtir o vazio da casa e do útero e, se quiser, vou chorar. Lágrimas libertadoras. E sem sofrer.

 

Maio 30, 2008

Paixão e fantasias

 

Sentada sobre azuleijos cor de pérola, a mulher de pele alva se fundia ao cenário. As costas sentiam o frio da pedra, que fazia o dorso arrepiar quando o líquido quente, que caía e serpenteava desde a cabeça, escolhia passear pelo colo, ignorando o verso do corpo, todo ele desnudo. As pernas dobradas à frente do tronco deixavam os joelhos, entregues, bêbados, se escorando um no outro. Fervilhantes, os poros exalavam paixão e vapor. E o olhar cruzava o box, atravessava paredes da casa e se perdia na lembrança daquele beijo demorado. Beijo que veio a durar anos na minha vida.

O sono profundo da paixão tem como primeiro sintoma o desembestar da mola interna. Mora dentro, paralelo à espinha dorsal, uma mola rija e cotidianamente comprimida, só liberada à propulsão máxima pelos encantos de uma paixão. Livre, esta mola atropela todos os órgãos que encontra pela frente, socando de intestino a esôfago, querendo sair pela boca. Na impossibilidade de escapar, a mola faz as pernas sacudirem, o corpo querer sair da cadeira, o sorriso não ser engolido. A mola vem, de fábrica, com um código – é ele que dispara a mola. Em vez de voltas à direita e à esquerda, este cofre mágico se abre com uma fórmula complexa e mais misteriosa que o genoma humano.

Lembro dos dentes amarelos daquele francês de cabelo enrolado. Lacônico, pouco se ouvia de sua voz rouca e do humor ácido. Um tipo estranho, que se destacava pela feiura e, para mim, pelo olhar sensual, que talvez ninguém mais visse. Recordo também de um homem rosado, bastante obeso, de panturillhas e tornozelos roliços, mas com boca e dentes compensatoriamente convidativos. Inteligente, outro me encantava pelas poesias inspiradas em nós, que escrevia. Com aqueles bíceps, o outro não precisava declamar nada, sequer falar. Suspirava com as pernas à Garrincha daquele outro… E aquele que me conquistava pela facilidade que tinha em se emocionar com as coisas simples da vida? Eram pequenas frações encantadoras. Pequenos deltas de pessoas que preenchiam, cada um, algumas das minhas fantasias e, portanto, tinham a chave secreta para a mola da paixão.

Numa festa, etiquetas desfilando pela fumaça, saía em meio à multidão um belo exemplar de homem, par de olhos brilhantes e verdes, cabelos negros, porte atlético. Conduzia pela mão seu par romântico, ainda obscurecido por dezenas de pessoas por metro quadrado. A lógica pedia que combinasse com ele uma bela morena, par de pernas imperando na passarela. Abriu caminho, no entanto, um rapazola, metro e meio, peludo que só ele, jeans tradicional, camisa bastante abotoada. Nada aparente poderia explicar.

Minha imaginação leva a crer que na hora de somar cromossomos, genes, dons e déficits que formam cada um de nós, é injetado no corpo e na mente o tal do código secreto, que será satisfeito com características sortidas de outrem. Nem nós sabemos a senha. Descobrir o que abre seu próprio cofre é desafio para uma vida, só revelado à base da experiência, da tentativa e erro, da escuta do inconsciente e das reações da pele e do intestino. Sorte de quem aprende que a senha não segue nenhuma combinação lógica.

Gato não combina necessariamente com gata. Na selva humana, gato combina com qualquer bicho ou bicha. Não adianta tentar ser bichano ou fazer estoque de leite para atrair gatinha. Porque, ao longe, nunca se sabe do que uma gatinha precisa. Nunca se sabe, o que fará, inexplicavelmente, as forças dela se renderem, num banho demorado, à salutar letargia da paixão.

Maio 27, 2008

Reencontros, seus humores e perfumes

 

Quando se é um bebê, o universo todo se resume a meia dúzia de gigantes que te olham de pertinho. Pelo menos metaforicamente, os olhinhos têm alcance de uma lente fotográfica grande-angular, aquela que distorce a cena em quase 30 graus, tornando tudo cerca de 50% maior do que a visão de um adulto normal poderia registrar. Na minha meninice, por exemplo, o barracão da casa da minha avó, como chamávamos o galpão, podia bem abrigar uns três carros alegóricos. Passados 15 anos sem freqüentá-lo semanalmente como de hábito, ele foi redimensionado para o tamanho relativamente pequeno de seis por nove que minha fita métrica e meu um metro e sessenta deixam avaliar.

O tempo passa e tudo adquire novas proporções. A vida parece o Bolero de Ravel. Ao longe, a banda é talvez intrigante, mas ainda inócua. De camarote, vendo ela passar bem à frente, tudo fica estrondoso, estremece as estruturas da arquibancada emocional e a percepção dos fatos. No entanto, depois da banda passar e do ponteiro passear à vontade pelo relógio, as emoções costumam adormecer. Com o tempo, esfriam mágoas, dores e amores.

Lembro da minha amiga caminhando pela rua, se afastando, a imagem dela ficando pequenininha, calça azul compondo com a camiseta branca de mangas curtas do uniforme escolar, que contrastava com a pele negra. Tinha por esta amiga um amor profundo e devotado, no alto dos 17 anos. Mesmo assim, se perdeu no tempo. Muitas alegrias depois, uma briga doída de adolescente abriu espaço para um longo desencontro. A distância cicatrizou o vazio. Vieram outras pessoas, ocuparam outras vagas. A vaga dela era ainda dela, embora inoperante. Onze anos depois, há poucos meses, surpreendentemente nos reencontramos.

Ela me procurou, fomos a um casamento de uma amiga em comum e conversamos por horas. Confessamos pecados, nos aconselhamos mutuamente, dividimos experiências das escolhas feitas. Os olhares estavam mais maduros; as falas, mais ponderadas. Choramos e rimos muito. Passamos a limpo o passado, não por haver necessidade desta revisão. O afeto gratuito, instantaneamente atualizado, e não protocolos de reencontros, é que justificava os dispensáveis pedidos de desculpas.

Este ano, outras peças destas o destino me pregou – sabido esse destino, que só apresenta desafios assim quando a gente está um tanto pronto para eles. Nos últimos tempos, outros amigos com os quais havia rompido, fosse com discussões ou com a distância que as rotinas impuseram, reapareceram. Vieram também ex-chefes. E até um ex-namorado.

Esse, então, acreditei que não veria mais. Duro, chegou a dizer que jamais seria meu amigo, com direito a ponto final. Com cenho franzido e convicções cheias de cláusulas pétreas, me fez acreditar que a profecia era verdade. Boba eu, que ainda levo os outros a sério. Foi esses dias, também por meio de um amigo em comum. O reencontro teve a suavidade de quem contou com os ponteiros como aliados por estes quase oito anos de intervalo. Foram embora quaisquer dissabores. Foram mesmo, porque nem saberia dizer se existiram. Se houve, não foram importantes. As horas de prosa foram estendidas com a ajuda de uma blusa emprestada por ele de forma cavalheira, que me confortou e protegeu dos poucos graus que me castigavam os braços. A conversa toda acabou com um abraço espontâneo que recebi, antes mesmo da despedida. Nele, senti algo de familiar.

“Ué, você usa o mesmo perfume ainda?”, perguntei, convicta da resposta.

“Não, claro que não”, ouvi.

“Bom, mas lembro deste perfume…”, com reticências e meio sem graça.

“Deve ser minha pele…”, comentário que eu temia.

“Humm, então deve ser sua pele, porque lembro bem deste cheiro”, me rendi.

“É bom, pelo menos?”, provocou.

“Ah, eu acho muito bom, se não não ficaria sentindo seu cangote por tantos anos seguidos”, corei. Rimos e a noite acabou neste tom.

O humor e a risada daquela minha amiga que reapareceu me encantaram logo de cara, trazendo o deleite de antes. O perfume e a bondade do meu primeiro namorado também despertaram em mim um olhar doce. Por mais que as relações ali estabelecidas sejam completamente distintas das precedentes, pude reconhecer algo neles que àquela época me fez apaixonar por aquelas pessoas. Ainda que estejam eles e eu mudados, me parece que há algo de etéreo e perene nas pessoas que amamos alguma vez. Há qualquer coisa de perpétuo nos amores que passaram.

Muita gente passa, o universo é redimensionado e tão ampliado, que todo mundo que conhecemos poderia ficar pequenininho, como milhares de miniaturas no mapa da vida. No entanto, quem foi amado talvez permaneça sempre sendo visto com grande-angular, em outra escala. De perto, suas vozes parecem evocar o momento áureo de Ravel. Só não sei se há nestas pessoas algum poder de sempre encantar com seus humores e perfumes ou se é o passado feliz que poderá sempre despertar, em um reencontro, um sorriso confortável em quem viveu uma alegria.

Maio 21, 2008

Feito pião

 

Imagine a cena. O Brad Pitt a dois metros de mim, exatamente à frente. Meu olhar, fitando adiante, congelou. E não só o olhar. O corpo todo parado, como que podia ser transportado em bloco. Os dois ossinhos do quadril, aqueles que ficam em dois pontos lateralmente eqüidistantes em relação ao ventre, estavam na mesma direção dos ombros, os quatro pontos mirando na mesma direção. Surgia, então, uma voz, atrás de mim. Ia se aproximando e, aos berros, requisitava atenção. Sem resposta, alguém me puxou pelo ombro direito, encaixando a mão lateralmente, com o polegar sobre o ombro, dando um impulso, para me fazer olhar para trás. O corpo começou a rotação, mas o olhar, claro, continuava no Brad Pitt. O corpo se rendeu à força, mas o olhar, objetivo, continuou procurando o Brad. A força foi suficiente para me fazer girar em torno do eixo. Sequer vi quem me puxava, porque o giro completou uma volta toda e o olhar, focado, não perdia o Brad de vista. Aliás, numa fração de segundo, aquela bela visão chegou à minha frente, antes mesmo do corpo.

 

Embora pareça, esse não é um sonho amalucado, mas sim a base da técnica de giro na dança. Seja no ballet ou na salsa, para que o giro não o desequilibre, você mantém o olhar fixo em direção a seu objetivo e, com impulso, vira o corpo até o máximo possível sem mexer a cabeça. Depois vem a cabeça, que gira mirando o alvo, querendo ver novamente o lugar de onde saiu, e chega neste ponto antes mesmo do corpo. Ninguém ensina isso com ajuda do Brad, mas até que seria uma boa…

Eu fazia isso com sapatilha com gesso na ponta, mas quando mudei o figurino para sapato de salto de dança de salão, a transferência de saberes não foi tão simples… Eu tentava girar, mas ou o corpo caía adiante ou cambaleava na bandeirada ou mesmo chegava antes da hora esperada na música. A culpa não era do sapato e muitas vezes também não era do parceiro. Foram as primaveras longe das sapatilhas que fizeram a técnica se depreciar e, sem ela, sobrou só a vontade de acertar. Mas, às vezes, vontade de acertar traz boas chances de errar feio…

Numa dessas noites salseras, depois de três músicas tentando (sem muito sucesso) aterrissar dos giros sem titubear, sentei para tomar uma água. Para aliviar a frustração, conversava sobre outros temas com uma amiga. Dizia ela que a irmã mais nova estava com siricutico de vontade de namorar. Que já se iam 21 anos de vida e nada de namorado, só uns raros beijinhos na boca ao som do bate-estaca. De manhã cedo, fazia chapinha, caprichava na maquiagem. Depois da faculdade, passava horas trocando mensagens instantâneas no computador com pretendentes, rindo e digitando aquelas combinações de letras que compõem o dicionário do internetês, cujo significado só a nova geração é capaz de decifrar.

Minha amiga, porém, estava preocupada. Porque fosse qual fosse o pretendente, a empolgação da irmã era excessiva. Ela falava tropeçando no sorriso, piscava cinco vezes para elaborar uma frase, saltitava, não cabia em si. A vontade de conquistar o namorado era tanta que, mal conhecia um rapaz, já corria fazer um agrado para ele, partindo para a conquista. Até pouco tempo, tinha mania de fazer um bolo para dar ao garoto. Ganhar pelo estômago não tem nada de démodé, é até bonitinho, mas ganhar moleques de 20 anos com bolo, talvez dê neles uma certa dor de estômago. Mais tarde, tentou como estratégia presenteá-los com um CD em que gravava versões do hino do time de futebol do gosto do rapaz.

Nada disso dava certo, como se podia prever. Os meninos saíam correndo da jovem, mesmo sendo bela. Minha amiga dizia: Carol, minha irmã está totalmente fora do eixo, está tão ansiosa que fica toda atrapalhada querendo acertar, ela sempre diz que precisaria de um namorado para se sentir completa, acho que isso não é legal. Eu assentia com a cabeça, achando muito plausível a análise da irmã. Pensei, claro, se ela precisava de alguém de fora para se sentir feliz, para encontrar o eixo interno, claro que sempre estaria se arremessando em direção ao objeto do desejo, buscando o equilíbrio na chegada deste outro.

Acabou a água, terminou aquela música e ela saiu para dançar. Antes mesmo de um rapaz me convidar para a próxima dança, me perguntei: Bom, será que não estou também projetando meu eixo fora de mim, só que na dança? Será que não estou procurando equilíbrio no encontro entre a minha mão e a do outro, em vez de deixar tudo aqui, dentro de mim? Então valeria dizer que para achar namorado, para trocar de emprego ou para dançar, a âncora que dá sustentação ao movimento deve estar sempre dentro, motivada pelo impulso interno? Bom, então não vale depender só do empurrãozinho dos outros nem se lançar nas mãos deles…? Olha, não virei um pião logo depois desta noite, mas comecei a girar, cada vez mais, no lugar…

Maio 19, 2008

Em bom português…

 

Os pequenos pés balançavam no ar e nem mesmo a ponta das sandalinhas de tirinhas amarelas resvalavam o solo – sobrava ainda um palmo de perna da cadeira de jantar até o chão. O narizinho, sim, esse já estava à altura da borda do prato, de onde vinha o estimulante aroma de manjericão, mussarela e molho de tomate. Nessa época, era assim que eu e meus pais terminávamos os sábados, comendo pizza e conversando muito à mesa. Lembro que conversávamos sobre a cor dos alimentos, a amizade, o choro, o movimento das Diretas Já, Tancredo Neves. Eram horas de prosa. Com menos de meia dúzia de anos, era estimulada a papear, a pensar sobre tudo e, especialmente, a argumentar.

Sou a soma de dois professores: ela, articulada, destemida, de raciocínio rápido e acolhedora; ele, sorriso de criança, contador de histórias, caipira por natureza e um intelectual. Longe de ter as qualidades de ambos, pelo menos absorvi deles o cuidado com o português, seja da gramática ou da lógica de uma frase. Nesses papos à mesa, ao sofá, ao pé do fogão ou durante um passeio qualquer, não saía “uma dó”, sem que, na seqüência, com ares de quem vai contar uma história saborosa, saísse uma explicação curiosa sobre o fato de “dó” ser masculino. Isso foi desenvolvendo em mim um gosto pelo falar correto, o que até causou algumas saias-justas.

Lembro que, aos dez anos, em um ensaio geral da minha companhia de ballet, no camarim, levantei a mão agitando um elástico de cabelo prateado que havia encontrado no chão e perguntei: “a quem pertence este elastiquinho?”. Putz, as pessoas riam tanto que o primeiro que pensei foi “poxa, será que falei besteira?” Só depois entendi que ninguém costumava falar tão certinho e que isso era motivo de piada.

Meu pai, doutor em português, sempre explicou que usar o idioma direitinho iria me ajudar a comunicar exatamente o que pensava e, portanto, seria importante para que eu me fizesse entender fosse numa redação ou na vida. Mesmo virando alvo fácil para chacota, eu me divertia com o português correto. Tanto que fui até fazer jornalismo.

Se no vestibular clareza era um critério de avaliação, na faculdade, era o mínimo que se esperava de um bom texto. Estivesse dúbio sem intenção de sê-lo ou faltasse substantivos que dessem ao leitor um bom panorama da cena, o texto era passível de uma reescrita completa. Por toda essa trajetória desde o berço, acreditava que a clareza do enunciador, de quem fala, poderia garantir a compreensão do que se diz. Até alguns teóricos da comunicação me ajudaram a sedimentar esta idéia.

Só agora, anos depois, observando as trapalhadas que vivemos nas relações amorosas, pude rever esse conceito construído à base de concreto. Uma amiga dizia ao pretendente: não vai dar para sair com você, estou muito ocupada ultimamente. Menos hesitante, dizia outra a seu amante, depois de algumas semanas: ah, não sei explicar, mas não estou mais a fim de sair contigo. Com vocação para jogadora de dardos, a terceira para o namorado, depois de três anos e trezentas brigas: como já disse em letra de forma, não me procure mais, cansei, me esqueça. Em todas as alternativas, de A a Zinco, minhas amigas receberam, dia seguinte, um insistente telefonema ou e-mail do rejeitado. Obtusos, todos afinavam seus discursos na linha do “oi, linda, tudo bem? Vamos ao cinema no sábado?”. Alguns por estratégia, outros por pura falta de compreensão da mensagem e dos limites que um “não” impõe.

Pensei, puxa, será que meio-planeta é autista? Você diz, explica, desenha e, por mais exato que esteja seu português, o outro não entende. Será que eu também sou acometida por este autismo repentino às vezes? Seja como for, revi o poder do bom português. Você pode até ser preciso na comunicação, não deixar brechas, eliminar entrelinhas. Ainda assim, quem ouve pode entender o que quiser, o que conseguir ouvir, o que puder alcançar. No jornalismo, ainda tenho este compromisso de ser clara para me fazer entender; mas na vida, relaxei. Falo o que penso e cada um que entenda o que puder, o que quiser. E você: ainda acha que clareza garante compreensão ou nem fui clara?

Maio 15, 2008

Aula de Paciência – Básico 2

 

Não me faltava apenas paciência, na hora da dança. Por trás dela, havia também umas teorias feministas, sinuosas e enraizadas… No salão de baile, desde que cismaram de dançar de parzinho, mais de meia dúzia de séculos atrás, a lógica pede que o homem comande e a mulher, esperta, siga seus passos. Na história do uns-pra-cá-outros-pra-lá, o cavalheiro decide qual passo vem agora, daqui a pouco e também mais adiante. À mulher, cabe entregar a beleza da resposta fluida e tranqüila, que não deixa ver a quantidade de saberes necessários para aquilo sair direito.

Isso sempre foi uma dificuldade para mim. Aos treze anos, eu preferia ir ao médico sozinha do que me queixar de uma dor a meus pais; aos 15, cabulava umas aulas de física e biologia e pegava o Penha 208A para assistir ao treino do meu Corinthians, que ainda tinha Marcelinho Carioca. Escolhia um itinerário, pegava um bumba e sentia o frio na barriga da tão apreciada autonomia. Aos 20 anos, comecei a freqüentar bailes de dança de salão, a convite de um amigo. Adorei a energia do lugar. Logo vi, no entanto, que ali a lógica era outra. Ali era ele, e não eu, que decidia o itinerário da viagem. Era ele que desenhava mental e solitariamente o rumo do meu passeio. Isso foi um tiro na minha nuca.

Relutei o quanto pude. Se não poderia antever o que pedia o comando do muchacho, eu mesma decidia para onde ir. Quem é que disse que eu quero seguir o que alguém me manda fazer? Necas. No meu caminho, mando eu! Depois de anos de autonomia, eu vou ser passiva e esperar que o outro decida onde devo ir?

Havia ali qualquer coisa torta com conceito de passividade. Um dia vi uma palestra da psicanalista Maria Rita Kehl que falava desta questão. Dizia ela que a única verdadeira passividade é aquela em que o sujeito deixa nas mãos do outro a resposta sobre o que ele deseja, como fariam os bebês, ao chorar sem saber ainda qual necessidade querem ver satisfeita. É, faz sentido. E mais: até o bebê age conforme o próprio desejo de reclamar, embora desconheça a forma exata de se satisfazer.

Poxa, então, ao som do bongô, percebi que a dançarina não é passiva, uma vez que ela mesma deseja ser conduzida até o final do passo. Antes de tudo, ela escolhe o homem com quem firmar uma parceria, de quem esperará o comando, com quem jogará este jogo, em que ambos atuam, embora ela espere.

Em última análise, não há vilão e mocinha. Não há opressor e vítima. Não há alguém mais poderoso que o outro. Vale para a dança, para o sexo, para a vida. O homem dá a cara para bater, inventa passos, se esforça para se aproximar da mulher, age constantemente, transpira sem parar. A mulher tem o privilégio de analisar o cenário do alto do salto e, se sentir inspirada, decidir por entrar naquela divertida brincadeira em que ambos desfrutam de seus papéis, em que o homem se deleita com a delicadeza da parceira, mas finge que manda na cena; e mulher, que acredita.

Maio 15, 2008

Aula de Paciência - Básico 1

 

A mão esquerda dele virava a minha direita, a um palmo do topo da minha cabeça, me pedindo para dar uma volta de 360 graus. Isso eu não demorava a entender, chegava lá rapidinho, de frente para ele, compondo a linha reta que a dança pede. Depois complicava. Vinha um impulso que empurrava o corpo para trás, forçando o pé direito a buscar equilíbrio pisando uns 20 centímetros aquém do outro. Aí surgia um braço esticado na direção oposta do meu olhar, girando meu o tronco de lado e vinha uma pausa repentina.

Era uma espera, que devia ser breve, calculada, marcadinha, com hora para acabar. Mas os segundos se sucediam e, diante da minha inércia insistente, os olhos dele iam se esbugalhando, pedindo alguma coisa que lhe parecesse óbvia. Em mim, o desespero. O que eu faço agora? Como fazer para sair daqui e chegar na tal linha imaginária que impõe a ordem de novo? Já sei, passagem à direita. Não, não, um giro à esquerda. Em função do atraso, tomava algum dos rumos inventados em frações de sinapses e, rapidinho, saia correndo para compensar os tic-tacs perdidos. Invariavelmente, as saídas que eu tomava me faziam parecer um trem que descarrilava e chegava em outro canto qualquer, fora da estação em que meu parceiro me aguardava, solitário. Demorava pelo menos umas cinco balançadas de cabeça, umas duas gargalhadas e o tempo de uns quinze passos até que eu ouvisse a clave a me chamar a tentar de novo a decifrar os pedidos do meu amigo, dançarino de salsa.

Durante anos foi assim. Mesmo errando muito, eu continuava a me aventurar pelo salão, embora em freqüência bem menor do que nas aulas. Isso mesmo. A pataquada toda acontecia enquanto eu já era assídua às classes que ensinavam desde as pedras fundamentais de damas e cavalheiros até as sutis interpretações de um torcer de mão, de uma leve pressão nas costas ou de um jogo de pernas. Esporádicas, as idas ao salão me faziam crer que eu não sabia nada de nada, tese opulentamente derrubada pelo meu bastante satisfatório desempenho nas aulas. Embora soubesse, errava no salão. Virou até piada.

Um dia descobri como acertar aquele passo no salão. Foi poucos meses atrás, quando saí para dançar depois horas de trabalho estressante, querendo espairecer. Estava cansada, corpo pesado, pálpebras relutantes e com uma sandália que me dava um metro de setenta e dores até na cabeça. Bravamente, meu amigo ofereceu a palma da mão e eu me arrisquei a aceitar aquela dança. Pé doendo, avisei: Vou ter que ir devagar. Cabeça rodando, pensei: Dança o que der, outro dia você tenta fazer direito.

O cansaço era tanto que eu mais esperava ele dançar do que dançava. No meio da dança, ouço: Viu que você fez aquele passo? Nem acreditei. Pois é, hoje você está tão… Cansada, me adiantei. Não, não, paciente, ele disse. Você está esperando em vez de que pensar em resolver tudo sozinha.

A lição serviu para a dança, que melhorou um bocado, como também para a vida. Coube ali um giro de muitos graus. Em vez de pensar rapidinho no que fazer e sair agindo, percebi que um desafio qualquer pede calma, espera – o que antes eu só faria cansada. Está de braços dados com o que a psicanálise chama de “feminino”, o que sabe respirar fundo, calar, acolher e só se mexer na melhor hora. Não à toa, o feminino cai bem à dama. A lição não é de passos, mas de paciência. Esperando, o cavalheiro e o mundo giram no ritmo que lhe cabem e eu perco bem menos o pé.

 

Maio 15, 2008

Diva ou divã?

 

O nome virou papo de divã. Sem pretensão de trazer ensaios sisudos, até porque no divã se fala tanta besteira e devaneios quanto em qualquer botequim… Mas, enfim, a intenção é registrar umas conversas que tenho tido com meus botões, minhas amigas e amigos, minha mãe, terapeuta. Os 30 anos se aproximam a cada dia, muita coisa mudou nos últimos tempos na minha vida e, tendo isso em vista, os papos assumiram um tom mais sereno e reflexivo. Como adoro rabiscar umas linhas – afinal faço isso por profissão, sou jornalista –, resolvi registrar e partilhar isso com quem gosta de mim. Sem o objetivo de tornar isso aqui conhecido muito além dos limites de meu umbigo.

 Não pretendo gastar linhas citando Freud, esmiuçando Reich ou jorrando Nietzsche. Minha competência nisso tudo transformaria o blog em um informativo de duas páginas de edição única. Quero mesmo é fazer uma catarse elaboradinha sobre as sacadas mais prosaicas da vida. Acho mesmo que as grandes sacadas são breguinhas e difíceis de absorver sem antes tirar da gente um riso irônico e preconceituoso. Quer mais que “o verdadeiro revolucionário é feito de sentimentos de amor”? Bom, o próprio Che Guevara reconhecia o risco de ser ridículo que corria ao dizer a máxima. Conseguir entender as frases de sempre de um modo aplicável à vida vem sendo mais revelador do que colocar meus óculos de míope para ler legenda no cinema.

 Enfim, como eu dizia antes, o nome é papo de divã. Por uma dessas limitações internetescas, o domínio ficou papodediva.wordpress.com. Imagine: “entra lá, anota aí: papo-de-diva-ponto…” Putz, papo de diva? Essa dubiedade incomodou, no primeiro instante. Pô, era para ser papo de divã, um boteco com cadeira confortável e onde não vale falar dos problemas colocando a culpa nos outros, na vizinha, no chefe ignorante, no namorado sem-graça, no Bush, no aquecimento global, mas um espaço em que a gente assume as rédeas do presente e do porvir e descobre em que pode contribuir para tornar a própria vida bem gostosinha.

 De todo modo, no segundo seguinte, papo de diva caiu bem. Não que eu quisesse formar um quinteto com Whitney, Celine, Mariah e Beyoncé. Ô absurdo! Mas porque aqui a tônica é fazer uma ode ao feminino, à beleza da metade direita do cérebro. Nada contra a esquerda. Nem ideologicamente nem da massa cinzenta. Mas em tempos de muita mulher de terninho falando grosso, cabe aqui um tempo para a delicadeza que existe em todos nós. Um cantinho que permita olhar a si amorosamente: com lupa, auto-crítica e auto-estima.