Maio 15, 2008...5:51 pm

Aula de Paciência – Básico 2

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Não me faltava apenas paciência, na hora da dança. Por trás dela, havia também umas teorias feministas, sinuosas e enraizadas… No salão de baile, desde que cismaram de dançar de parzinho, mais de meia dúzia de séculos atrás, a lógica pede que o homem comande e a mulher, esperta, siga seus passos. Na história do uns-pra-cá-outros-pra-lá, o cavalheiro decide qual passo vem agora, daqui a pouco e também mais adiante. À mulher, cabe entregar a beleza da resposta fluida e tranqüila, que não deixa ver a quantidade de saberes necessários para aquilo sair direito.

Isso sempre foi uma dificuldade para mim. Aos treze anos, eu preferia ir ao médico sozinha do que me queixar de uma dor a meus pais; aos 15, cabulava umas aulas de física e biologia e pegava o Penha 208A para assistir ao treino do meu Corinthians, que ainda tinha Marcelinho Carioca. Escolhia um itinerário, pegava um bumba e sentia o frio na barriga da tão apreciada autonomia. Aos 20 anos, comecei a freqüentar bailes de dança de salão, a convite de um amigo. Adorei a energia do lugar. Logo vi, no entanto, que ali a lógica era outra. Ali era ele, e não eu, que decidia o itinerário da viagem. Era ele que desenhava mental e solitariamente o rumo do meu passeio. Isso foi um tiro na minha nuca.

Relutei o quanto pude. Se não poderia antever o que pedia o comando do muchacho, eu mesma decidia para onde ir. Quem é que disse que eu quero seguir o que alguém me manda fazer? Necas. No meu caminho, mando eu! Depois de anos de autonomia, eu vou ser passiva e esperar que o outro decida onde devo ir?

Havia ali qualquer coisa torta com conceito de passividade. Um dia vi uma palestra da psicanalista Maria Rita Kehl que falava desta questão. Dizia ela que a única verdadeira passividade é aquela em que o sujeito deixa nas mãos do outro a resposta sobre o que ele deseja, como fariam os bebês, ao chorar sem saber ainda qual necessidade querem ver satisfeita. É, faz sentido. E mais: até o bebê age conforme o próprio desejo de reclamar, embora desconheça a forma exata de se satisfazer.

Poxa, então, ao som do bongô, percebi que a dançarina não é passiva, uma vez que ela mesma deseja ser conduzida até o final do passo. Antes de tudo, ela escolhe o homem com quem firmar uma parceria, de quem esperará o comando, com quem jogará este jogo, em que ambos atuam, embora ela espere.

Em última análise, não há vilão e mocinha. Não há opressor e vítima. Não há alguém mais poderoso que o outro. Vale para a dança, para o sexo, para a vida. O homem dá a cara para bater, inventa passos, se esforça para se aproximar da mulher, age constantemente, transpira sem parar. A mulher tem o privilégio de analisar o cenário do alto do salto e, se sentir inspirada, decidir por entrar naquela divertida brincadeira em que ambos desfrutam de seus papéis, em que o homem se deleita com a delicadeza da parceira, mas finge que manda na cena; e mulher, que acredita.

1 Comentário

  • Carolzinha, esse merecia ir para os sites de salsa, p/ os muchachos terem uma visão femin ina do assunto. Parabéns pelo blog!! Adorei!!!

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