A mão esquerda dele virava a minha direita, a um palmo do topo da minha cabeça, me pedindo para dar uma volta de 360 graus. Isso eu não demorava a entender, chegava lá rapidinho, de frente para ele, compondo a linha reta que a dança pede. Depois complicava. Vinha um impulso que empurrava o corpo para trás, forçando o pé direito a buscar equilíbrio pisando uns 20 centímetros aquém do outro. Aí surgia um braço esticado na direção oposta do meu olhar, girando meu o tronco de lado e vinha uma pausa repentina.
Era uma espera, que devia ser breve, calculada, marcadinha, com hora para acabar. Mas os segundos se sucediam e, diante da minha inércia insistente, os olhos dele iam se esbugalhando, pedindo alguma coisa que lhe parecesse óbvia. Em mim, o desespero. O que eu faço agora? Como fazer para sair daqui e chegar na tal linha imaginária que impõe a ordem de novo? Já sei, passagem à direita. Não, não, um giro à esquerda. Em função do atraso, tomava algum dos rumos inventados em frações de sinapses e, rapidinho, saia correndo para compensar os tic-tacs perdidos. Invariavelmente, as saídas que eu tomava me faziam parecer um trem que descarrilava e chegava em outro canto qualquer, fora da estação em que meu parceiro me aguardava, solitário. Demorava pelo menos umas cinco balançadas de cabeça, umas duas gargalhadas e o tempo de uns quinze passos até que eu ouvisse a clave a me chamar a tentar de novo a decifrar os pedidos do meu amigo, dançarino de salsa.
Durante anos foi assim. Mesmo errando muito, eu continuava a me aventurar pelo salão, embora em freqüência bem menor do que nas aulas. Isso mesmo. A pataquada toda acontecia enquanto eu já era assídua às classes que ensinavam desde as pedras fundamentais de damas e cavalheiros até as sutis interpretações de um torcer de mão, de uma leve pressão nas costas ou de um jogo de pernas. Esporádicas, as idas ao salão me faziam crer que eu não sabia nada de nada, tese opulentamente derrubada pelo meu bastante satisfatório desempenho nas aulas. Embora soubesse, errava no salão. Virou até piada.
Um dia descobri como acertar aquele passo no salão. Foi poucos meses atrás, quando saí para dançar depois horas de trabalho estressante, querendo espairecer. Estava cansada, corpo pesado, pálpebras relutantes e com uma sandália que me dava um metro de setenta e dores até na cabeça. Bravamente, meu amigo ofereceu a palma da mão e eu me arrisquei a aceitar aquela dança. Pé doendo, avisei: Vou ter que ir devagar. Cabeça rodando, pensei: Dança o que der, outro dia você tenta fazer direito.
O cansaço era tanto que eu mais esperava ele dançar do que dançava. No meio da dança, ouço: Viu que você fez aquele passo? Nem acreditei. Pois é, hoje você está tão… Cansada, me adiantei. Não, não, paciente, ele disse. Você está esperando em vez de que pensar em resolver tudo sozinha.
A lição serviu para a dança, que melhorou um bocado, como também para a vida. Coube ali um giro de muitos graus. Em vez de pensar rapidinho no que fazer e sair agindo, percebi que um desafio qualquer pede calma, espera – o que antes eu só faria cansada. Está de braços dados com o que a psicanálise chama de “feminino”, o que sabe respirar fundo, calar, acolher e só se mexer na melhor hora. Não à toa, o feminino cai bem à dama. A lição não é de passos, mas de paciência. Esperando, o cavalheiro e o mundo giram no ritmo que lhe cabem e eu perco bem menos o pé.
2 Comentários
Maio 19, 2008 às 11:20 am
somos ocas? kkkk
Maio 22, 2008 às 4:57 am
ejej.. essa eu conheço em detalhes, o que vc não sabe é quanto tempo eu esperei que vc comenzara as aulas e chegasse nessa conclusão, que não é fácil chegar, muito menos aplicar. Tenho também muitas teorias disso aplicadas à vida…
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