Maio 19, 2008...6:22 pm

Em bom português…

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Os pequenos pés balançavam no ar e nem mesmo a ponta das sandalinhas de tirinhas amarelas resvalavam o solo – sobrava ainda um palmo de perna da cadeira de jantar até o chão. O narizinho, sim, esse já estava à altura da borda do prato, de onde vinha o estimulante aroma de manjericão, mussarela e molho de tomate. Nessa época, era assim que eu e meus pais terminávamos os sábados, comendo pizza e conversando muito à mesa. Lembro que conversávamos sobre a cor dos alimentos, a amizade, o choro, o movimento das Diretas Já, Tancredo Neves. Eram horas de prosa. Com menos de meia dúzia de anos, era estimulada a papear, a pensar sobre tudo e, especialmente, a argumentar.

Sou a soma de dois professores: ela, articulada, destemida, de raciocínio rápido e acolhedora; ele, sorriso de criança, contador de histórias, caipira por natureza e um intelectual. Longe de ter as qualidades de ambos, pelo menos absorvi deles o cuidado com o português, seja da gramática ou da lógica de uma frase. Nesses papos à mesa, ao sofá, ao pé do fogão ou durante um passeio qualquer, não saía “uma dó”, sem que, na seqüência, com ares de quem vai contar uma história saborosa, saísse uma explicação curiosa sobre o fato de “dó” ser masculino. Isso foi desenvolvendo em mim um gosto pelo falar correto, o que até causou algumas saias-justas.

Lembro que, aos dez anos, em um ensaio geral da minha companhia de ballet, no camarim, levantei a mão agitando um elástico de cabelo prateado que havia encontrado no chão e perguntei: “a quem pertence este elastiquinho?”. Putz, as pessoas riam tanto que o primeiro que pensei foi “poxa, será que falei besteira?” Só depois entendi que ninguém costumava falar tão certinho e que isso era motivo de piada.

Meu pai, doutor em português, sempre explicou que usar o idioma direitinho iria me ajudar a comunicar exatamente o que pensava e, portanto, seria importante para que eu me fizesse entender fosse numa redação ou na vida. Mesmo virando alvo fácil para chacota, eu me divertia com o português correto. Tanto que fui até fazer jornalismo.

Se no vestibular clareza era um critério de avaliação, na faculdade, era o mínimo que se esperava de um bom texto. Estivesse dúbio sem intenção de sê-lo ou faltasse substantivos que dessem ao leitor um bom panorama da cena, o texto era passível de uma reescrita completa. Por toda essa trajetória desde o berço, acreditava que a clareza do enunciador, de quem fala, poderia garantir a compreensão do que se diz. Até alguns teóricos da comunicação me ajudaram a sedimentar esta idéia.

Só agora, anos depois, observando as trapalhadas que vivemos nas relações amorosas, pude rever esse conceito construído à base de concreto. Uma amiga dizia ao pretendente: não vai dar para sair com você, estou muito ocupada ultimamente. Menos hesitante, dizia outra a seu amante, depois de algumas semanas: ah, não sei explicar, mas não estou mais a fim de sair contigo. Com vocação para jogadora de dardos, a terceira para o namorado, depois de três anos e trezentas brigas: como já disse em letra de forma, não me procure mais, cansei, me esqueça. Em todas as alternativas, de A a Zinco, minhas amigas receberam, dia seguinte, um insistente telefonema ou e-mail do rejeitado. Obtusos, todos afinavam seus discursos na linha do “oi, linda, tudo bem? Vamos ao cinema no sábado?”. Alguns por estratégia, outros por pura falta de compreensão da mensagem e dos limites que um “não” impõe.

Pensei, puxa, será que meio-planeta é autista? Você diz, explica, desenha e, por mais exato que esteja seu português, o outro não entende. Será que eu também sou acometida por este autismo repentino às vezes? Seja como for, revi o poder do bom português. Você pode até ser preciso na comunicação, não deixar brechas, eliminar entrelinhas. Ainda assim, quem ouve pode entender o que quiser, o que conseguir ouvir, o que puder alcançar. No jornalismo, ainda tenho este compromisso de ser clara para me fazer entender; mas na vida, relaxei. Falo o que penso e cada um que entenda o que puder, o que quiser. E você: ainda acha que clareza garante compreensão ou nem fui clara?

3 Comentários

  • Excelente, você poderia ter escrito a mesma coisa de dez maneiras diferentes, só se compreende o que se é habilitado a concluir, nada mais do que isso. Por isso mesmo temo que não tenha compreendido o total, mas isso eu posso tirar a limpo depois. Me perdoe o mal uso do idioma hein, não tenho tanto zelo quanto você pelo uso da palavra.
    De mais a mais seu texto ficou muito bom, e me faz pensar na qualidade do jornalismo que nos apresentam, artigos tendenciosos e mals escritos, que lástima.
    Você é uma menina de sorte pela boa educacão que teve.
    Mas acho no caso das suas amigas o problema não foi se fazer compreender, tem gente que teima em fingir que não entendeu.

    beijos

  • amei, Carol…espero ter entendido tudinho…:P bjs, linda…

  • Como todo homem, não debo ter entendido mitad do que vc quiz dizer, mas nunca te imaginei tanto assim…. e ainda danza… e salsa!!

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