Maio 21, 2008...7:55 pm

Feito pião

Ir aos comentários

 

Imagine a cena. O Brad Pitt a dois metros de mim, exatamente à frente. Meu olhar, fitando adiante, congelou. E não só o olhar. O corpo todo parado, como que podia ser transportado em bloco. Os dois ossinhos do quadril, aqueles que ficam em dois pontos lateralmente eqüidistantes em relação ao ventre, estavam na mesma direção dos ombros, os quatro pontos mirando na mesma direção. Surgia, então, uma voz, atrás de mim. Ia se aproximando e, aos berros, requisitava atenção. Sem resposta, alguém me puxou pelo ombro direito, encaixando a mão lateralmente, com o polegar sobre o ombro, dando um impulso, para me fazer olhar para trás. O corpo começou a rotação, mas o olhar, claro, continuava no Brad Pitt. O corpo se rendeu à força, mas o olhar, objetivo, continuou procurando o Brad. A força foi suficiente para me fazer girar em torno do eixo. Sequer vi quem me puxava, porque o giro completou uma volta toda e o olhar, focado, não perdia o Brad de vista. Aliás, numa fração de segundo, aquela bela visão chegou à minha frente, antes mesmo do corpo.

 

Embora pareça, esse não é um sonho amalucado, mas sim a base da técnica de giro na dança. Seja no ballet ou na salsa, para que o giro não o desequilibre, você mantém o olhar fixo em direção a seu objetivo e, com impulso, vira o corpo até o máximo possível sem mexer a cabeça. Depois vem a cabeça, que gira mirando o alvo, querendo ver novamente o lugar de onde saiu, e chega neste ponto antes mesmo do corpo. Ninguém ensina isso com ajuda do Brad, mas até que seria uma boa…

Eu fazia isso com sapatilha com gesso na ponta, mas quando mudei o figurino para sapato de salto de dança de salão, a transferência de saberes não foi tão simples… Eu tentava girar, mas ou o corpo caía adiante ou cambaleava na bandeirada ou mesmo chegava antes da hora esperada na música. A culpa não era do sapato e muitas vezes também não era do parceiro. Foram as primaveras longe das sapatilhas que fizeram a técnica se depreciar e, sem ela, sobrou só a vontade de acertar. Mas, às vezes, vontade de acertar traz boas chances de errar feio…

Numa dessas noites salseras, depois de três músicas tentando (sem muito sucesso) aterrissar dos giros sem titubear, sentei para tomar uma água. Para aliviar a frustração, conversava sobre outros temas com uma amiga. Dizia ela que a irmã mais nova estava com siricutico de vontade de namorar. Que já se iam 21 anos de vida e nada de namorado, só uns raros beijinhos na boca ao som do bate-estaca. De manhã cedo, fazia chapinha, caprichava na maquiagem. Depois da faculdade, passava horas trocando mensagens instantâneas no computador com pretendentes, rindo e digitando aquelas combinações de letras que compõem o dicionário do internetês, cujo significado só a nova geração é capaz de decifrar.

Minha amiga, porém, estava preocupada. Porque fosse qual fosse o pretendente, a empolgação da irmã era excessiva. Ela falava tropeçando no sorriso, piscava cinco vezes para elaborar uma frase, saltitava, não cabia em si. A vontade de conquistar o namorado era tanta que, mal conhecia um rapaz, já corria fazer um agrado para ele, partindo para a conquista. Até pouco tempo, tinha mania de fazer um bolo para dar ao garoto. Ganhar pelo estômago não tem nada de démodé, é até bonitinho, mas ganhar moleques de 20 anos com bolo, talvez dê neles uma certa dor de estômago. Mais tarde, tentou como estratégia presenteá-los com um CD em que gravava versões do hino do time de futebol do gosto do rapaz.

Nada disso dava certo, como se podia prever. Os meninos saíam correndo da jovem, mesmo sendo bela. Minha amiga dizia: Carol, minha irmã está totalmente fora do eixo, está tão ansiosa que fica toda atrapalhada querendo acertar, ela sempre diz que precisaria de um namorado para se sentir completa, acho que isso não é legal. Eu assentia com a cabeça, achando muito plausível a análise da irmã. Pensei, claro, se ela precisava de alguém de fora para se sentir feliz, para encontrar o eixo interno, claro que sempre estaria se arremessando em direção ao objeto do desejo, buscando o equilíbrio na chegada deste outro.

Acabou a água, terminou aquela música e ela saiu para dançar. Antes mesmo de um rapaz me convidar para a próxima dança, me perguntei: Bom, será que não estou também projetando meu eixo fora de mim, só que na dança? Será que não estou procurando equilíbrio no encontro entre a minha mão e a do outro, em vez de deixar tudo aqui, dentro de mim? Então valeria dizer que para achar namorado, para trocar de emprego ou para dançar, a âncora que dá sustentação ao movimento deve estar sempre dentro, motivada pelo impulso interno? Bom, então não vale depender só do empurrãozinho dos outros nem se lançar nas mãos deles…? Olha, não virei um pião logo depois desta noite, mas comecei a girar, cada vez mais, no lugar…

4 Comentários

  • Parabéns pelo blog, tá lindo!

    Adorei os textos. Me fizeram relembrar nossos papo, auto-análise e análises conjutas.

    Acompanharei sempre. Afinal sou sua fã. Ao ler, pude ouvir tua voz e ver teu sorriso, os olhinhos de menina levada brilhando. Saudades…

    Bjoca

  • Ô minha gata… Vê se volta para ver os neuróticos da selva de cimento, vai… Assim a gente atualiza e aprofunda aquelas antigas conversas… Obrigada pelo carinho, morro de saudades de você. Beijo enorme.

  • gostei de seu texto, principalmente pelo tom lírico. a felicidade que vem de dentro e a que recebemos de fora são diferentes, igualmente boas, mas uma não substitui a outra de forma alguma.

  • Gabriel Falcione

    Carol,
    parabéns pelo blog!
    Gostei bastante desse texto, muito bom mesmo! :)
    Ganhou um leitor assíduo.
    Bjs!


Deixe uma resposta