Maio 27, 2008...3:59 am

Reencontros, seus humores e perfumes

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Quando se é um bebê, o universo todo se resume a meia dúzia de gigantes que te olham de pertinho. Pelo menos metaforicamente, os olhinhos têm alcance de uma lente fotográfica grande-angular, aquela que distorce a cena em quase 30 graus, tornando tudo cerca de 50% maior do que a visão de um adulto normal poderia registrar. Na minha meninice, por exemplo, o barracão da casa da minha avó, como chamávamos o galpão, podia bem abrigar uns três carros alegóricos. Passados 15 anos sem freqüentá-lo semanalmente como de hábito, ele foi redimensionado para o tamanho relativamente pequeno de seis por nove que minha fita métrica e meu um metro e sessenta deixam avaliar.

O tempo passa e tudo adquire novas proporções. A vida parece o Bolero de Ravel. Ao longe, a banda é talvez intrigante, mas ainda inócua. De camarote, vendo ela passar bem à frente, tudo fica estrondoso, estremece as estruturas da arquibancada emocional e a percepção dos fatos. No entanto, depois da banda passar e do ponteiro passear à vontade pelo relógio, as emoções costumam adormecer. Com o tempo, esfriam mágoas, dores e amores.

Lembro da minha amiga caminhando pela rua, se afastando, a imagem dela ficando pequenininha, calça azul compondo com a camiseta branca de mangas curtas do uniforme escolar, que contrastava com a pele negra. Tinha por esta amiga um amor profundo e devotado, no alto dos 17 anos. Mesmo assim, se perdeu no tempo. Muitas alegrias depois, uma briga doída de adolescente abriu espaço para um longo desencontro. A distância cicatrizou o vazio. Vieram outras pessoas, ocuparam outras vagas. A vaga dela era ainda dela, embora inoperante. Onze anos depois, há poucos meses, surpreendentemente nos reencontramos.

Ela me procurou, fomos a um casamento de uma amiga em comum e conversamos por horas. Confessamos pecados, nos aconselhamos mutuamente, dividimos experiências das escolhas feitas. Os olhares estavam mais maduros; as falas, mais ponderadas. Choramos e rimos muito. Passamos a limpo o passado, não por haver necessidade desta revisão. O afeto gratuito, instantaneamente atualizado, e não protocolos de reencontros, é que justificava os dispensáveis pedidos de desculpas.

Este ano, outras peças destas o destino me pregou – sabido esse destino, que só apresenta desafios assim quando a gente está um tanto pronto para eles. Nos últimos tempos, outros amigos com os quais havia rompido, fosse com discussões ou com a distância que as rotinas impuseram, reapareceram. Vieram também ex-chefes. E até um ex-namorado.

Esse, então, acreditei que não veria mais. Duro, chegou a dizer que jamais seria meu amigo, com direito a ponto final. Com cenho franzido e convicções cheias de cláusulas pétreas, me fez acreditar que a profecia era verdade. Boba eu, que ainda levo os outros a sério. Foi esses dias, também por meio de um amigo em comum. O reencontro teve a suavidade de quem contou com os ponteiros como aliados por estes quase oito anos de intervalo. Foram embora quaisquer dissabores. Foram mesmo, porque nem saberia dizer se existiram. Se houve, não foram importantes. As horas de prosa foram estendidas com a ajuda de uma blusa emprestada por ele de forma cavalheira, que me confortou e protegeu dos poucos graus que me castigavam os braços. A conversa toda acabou com um abraço espontâneo que recebi, antes mesmo da despedida. Nele, senti algo de familiar.

“Ué, você usa o mesmo perfume ainda?”, perguntei, convicta da resposta.

“Não, claro que não”, ouvi.

“Bom, mas lembro deste perfume…”, com reticências e meio sem graça.

“Deve ser minha pele…”, comentário que eu temia.

“Humm, então deve ser sua pele, porque lembro bem deste cheiro”, me rendi.

“É bom, pelo menos?”, provocou.

“Ah, eu acho muito bom, se não não ficaria sentindo seu cangote por tantos anos seguidos”, corei. Rimos e a noite acabou neste tom.

O humor e a risada daquela minha amiga que reapareceu me encantaram logo de cara, trazendo o deleite de antes. O perfume e a bondade do meu primeiro namorado também despertaram em mim um olhar doce. Por mais que as relações ali estabelecidas sejam completamente distintas das precedentes, pude reconhecer algo neles que àquela época me fez apaixonar por aquelas pessoas. Ainda que estejam eles e eu mudados, me parece que há algo de etéreo e perene nas pessoas que amamos alguma vez. Há qualquer coisa de perpétuo nos amores que passaram.

Muita gente passa, o universo é redimensionado e tão ampliado, que todo mundo que conhecemos poderia ficar pequenininho, como milhares de miniaturas no mapa da vida. No entanto, quem foi amado talvez permaneça sempre sendo visto com grande-angular, em outra escala. De perto, suas vozes parecem evocar o momento áureo de Ravel. Só não sei se há nestas pessoas algum poder de sempre encantar com seus humores e perfumes ou se é o passado feliz que poderá sempre despertar, em um reencontro, um sorriso confortável em quem viveu uma alegria.

4 Comentários

  • Carol, os encontros e desencontros de nossas vidas nos pregam cada peça e surpresas. e as vezes tudo o que precisamos para compreendê-las e digeri-las é de tempo, uma palavra tão pequena com um imenso significado em toda sua sabedoria.

    agora sobre como cheguei a seu blog, talvez contei com um pouco de sorte para encontrá-lo, usei a seta de busca aleatória e justamente seu cantinho me foi apresentado e muito bem representado.

    me apaixonei de cara pelo sentimento a flor da pele que você expressa em seus textos. é notável.

  • Nem sei o que comentar já que falamos bastante sobre o assunto, na minha experiência só esse afastamento de anos permite logo ao reencontrar ter dimensão dos sentimentos vividos, pode parecer bobo, mas acho que ninguem consegue mensurar com tanta clareza as sensacões sem ter se afastado delas completamente, mesmo podendo desperta-las não acredito que possamos sentir denovo igual, afinal como vc bem expos mudamos muito, mas com o amadurecimento conseguimos extrair o que de melhor foi vivido naquele determinado momento.

    beijos

  • Acho que é o amor, puro, simples e verdadeiro… Não interessa a cor, tamanho, forma e nem mesmo o tempo… Essas vagas vão estar sempre preenchidas e vivas… Pode ser que seja o amor que desperte as alegris vividas…

    Um beijo.

  • Terra do Pão de Queijo

    Adorei seus textos, acho que uma pessoa que escreve bem é aquela que consegue descrever momentos as vezes simples, do cotidiano, mas de uma forma que os torna grandiosos.


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