Maio 30, 2008...7:46 pm

Paixão e fantasias

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Sentada sobre azuleijos cor de pérola, a mulher de pele alva se fundia ao cenário. As costas sentiam o frio da pedra, que fazia o dorso arrepiar quando o líquido quente, que caía e serpenteava desde a cabeça, escolhia passear pelo colo, ignorando o verso do corpo, todo ele desnudo. As pernas dobradas à frente do tronco deixavam os joelhos, entregues, bêbados, se escorando um no outro. Fervilhantes, os poros exalavam paixão e vapor. E o olhar cruzava o box, atravessava paredes da casa e se perdia na lembrança daquele beijo demorado. Beijo que veio a durar anos na minha vida.

O sono profundo da paixão tem como primeiro sintoma o desembestar da mola interna. Mora dentro, paralelo à espinha dorsal, uma mola rija e cotidianamente comprimida, só liberada à propulsão máxima pelos encantos de uma paixão. Livre, esta mola atropela todos os órgãos que encontra pela frente, socando de intestino a esôfago, querendo sair pela boca. Na impossibilidade de escapar, a mola faz as pernas sacudirem, o corpo querer sair da cadeira, o sorriso não ser engolido. A mola vem, de fábrica, com um código – é ele que dispara a mola. Em vez de voltas à direita e à esquerda, este cofre mágico se abre com uma fórmula complexa e mais misteriosa que o genoma humano.

Lembro dos dentes amarelos daquele francês de cabelo enrolado. Lacônico, pouco se ouvia de sua voz rouca e do humor ácido. Um tipo estranho, que se destacava pela feiura e, para mim, pelo olhar sensual, que talvez ninguém mais visse. Recordo também de um homem rosado, bastante obeso, de panturillhas e tornozelos roliços, mas com boca e dentes compensatoriamente convidativos. Inteligente, outro me encantava pelas poesias inspiradas em nós, que escrevia. Com aqueles bíceps, o outro não precisava declamar nada, sequer falar. Suspirava com as pernas à Garrincha daquele outro… E aquele que me conquistava pela facilidade que tinha em se emocionar com as coisas simples da vida? Eram pequenas frações encantadoras. Pequenos deltas de pessoas que preenchiam, cada um, algumas das minhas fantasias e, portanto, tinham a chave secreta para a mola da paixão.

Numa festa, etiquetas desfilando pela fumaça, saía em meio à multidão um belo exemplar de homem, par de olhos brilhantes e verdes, cabelos negros, porte atlético. Conduzia pela mão seu par romântico, ainda obscurecido por dezenas de pessoas por metro quadrado. A lógica pedia que combinasse com ele uma bela morena, par de pernas imperando na passarela. Abriu caminho, no entanto, um rapazola, metro e meio, peludo que só ele, jeans tradicional, camisa bastante abotoada. Nada aparente poderia explicar.

Minha imaginação leva a crer que na hora de somar cromossomos, genes, dons e déficits que formam cada um de nós, é injetado no corpo e na mente o tal do código secreto, que será satisfeito com características sortidas de outrem. Nem nós sabemos a senha. Descobrir o que abre seu próprio cofre é desafio para uma vida, só revelado à base da experiência, da tentativa e erro, da escuta do inconsciente e das reações da pele e do intestino. Sorte de quem aprende que a senha não segue nenhuma combinação lógica.

Gato não combina necessariamente com gata. Na selva humana, gato combina com qualquer bicho ou bicha. Não adianta tentar ser bichano ou fazer estoque de leite para atrair gatinha. Porque, ao longe, nunca se sabe do que uma gatinha precisa. Nunca se sabe, o que fará, inexplicavelmente, as forças dela se renderem, num banho demorado, à salutar letargia da paixão.

1 Comentário

  • “Nunca se sabe, o que fará, inexplicavelmente, as forças dela se renderem, num banho demorado, à salutar letargia da paixão”
    Imagino eu, que forças hão de render-te muchacha.
    bjos


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