Junho 11, 2008...7:24 pm

Convite ao âmago

Jump to Comments

 

 Senti uma doce melancolia esta semana e comentei com um amigo que essa sensação era arauto do período menstrual. Ele, como muitos fariam, retrucou comemorando o fato de ser homem e, portanto, de estar livre deste incômodo. Também mulheres agradeceriam, pudessem se safar das emoções e reações que a fase traz.

Sempre gostei de menstruar – me sinto poderosa, lembrando (mesmo que inconscientemente), a capacidade de fazer a mágica da vida. Ainda assim, até pouco tempo, me orgulhava em dizer que não sentia nada neste período do mês. Nada de seios sensíveis ou lágrima rolando. Não sei se não sentia ou se negava sentir. Até porquê, homens (mas não só eles) não têm a menor idéia do que estes hormônios fazem e, portanto, acham que toda essa história de menstruação uma bobajada de mulher chata e sensível demais. Não queria ser uma mulher malinha, ranheta… Lembro de uma amigo que, na época da TPM da namorada, achando estar sendo legal com ela, a olhava com uma certa piedade, como se ela estivesse adoentada, já que ela demonstrava estar mais delicada.

Nos últimos tempos, passei a encarar o período como um convite a uma viagem interna. As alterações hormonais alteram o equilíbrio do corpo de modo que me sinto conectada às entranhas, ligada ao útero, a um lugar oco onde tudo faz eco. Lá no buraco onde cai Alice todo mês, fico pequena e, lado a lado com as vísceras, emoções e cenários vividos ficam grandes, barulhentos. A dose extra de progesterona, que prepara a mulher para engravidar, impõe uma percepção alterada da vida. Se rejeitada, traz irritação e sensação de solidão, pela insatisfação de ser empurrado para dentro de si. Se acolhida, esta condição traz uma sensibilidade apurada e uma introspecção silenciadora, mas confortável.

Dá para sorver essa sensação, curtindo as emoções à flor da pele, gole a gole. Encarar a TPM sem disfarces equivale a enfrentar o desafio de morar sozinho sem encher a casa de amigos que gargalham tomando cerveja. É morar sozinho assistindo um filme sem ninguém do lado e estar feliz com o espaço, com o silêncio, com as escolhas só suas. É aproveitar esta viagem psicotrópica de origem hormonal.

A medir pela experiência própria e das amigas, diria que a gente pode passar a vida toda negando que estas alterações existem, embora seja mais saudável aceitar as alterações e senti-las profundamente. Não sinto necessidade de chorar no trabalho ou de bater em alguém – se alguém está neste ponto, medicamentos, exercícios e terapias são recomendados e ajudam a equilibrar essa equação. Há, no entanto, um ponto equilibrado, em que é possível se emocionar, ver as coisas com óculos de sensibilidade, aproveitar um abraço e ter bom-humor. Hoje à noite, debaixo da coberta, assintindo um episódio da minha série favorita, vou curtir o vazio da casa e do útero e, se quiser, vou chorar. Lágrimas libertadoras. E sem sofrer.

 

2 Comentários

  • Um poder tão grande que é conceber vida foi o que sabiamente a natureza destinou as mulheres, traz junto consigo um ônus, a nós homens cabe observar alegre a ausência do deste porque preteridos na dádiva não nos recaíra fardo que não possamos suportar.

    kisu

  • Carol,
    … lindo … doce melancolia de Alice viajando ao centro da terra, sabendo ou não o que acontece, enquanto assiste house … escreva mais!

Deixe um comentário