O rapaz enfiava o dedo pelo buraco do boné ralado, que não escondia os caracóis castanhos com pontas descoloridas por água oxigenada, e tentava coçar a cabeça, enquanto apontava o queixo para o amigo, também de uns 20 anos:
– Mano, só tenho dois e setenta. Vê vinte centavo aí pra interar o maço… tem a manha? – dizia, já contando as moedas, logo depois de pedir um Malboro para a caixa.
Antes mesmo de saber que o outro tinha lá uma moeda de vinte e cinco, foi interrompido por um homem, talvez uma década mais velho, que voltava ao caixa para entregar um comprovante de pagamento à atendente. Falando baixo, carregando uma jaqueta, uma papelada que parecia trazer do trabalho e um olhar calmo, tocou no braço no fumante:
– Boa noite, com licença, preciso para entregar este papel para a caixa, tudo bem?
Diante de um aceno, o moço fez o que tinha que fazer e emendou, simpático: – Obrigado.
– Box ou maço?
A pergunta atravessou os pensamentos do loiro do boné velho, que conservava a testa franzida e com uma sobrancelha no alto e a outra perto do olho. Sem responder, desviou a cabeça em direção ao colega:
– Ou, você viu isso? Mano, que cara gentil. Nunca vi…
– É, vai ser gentil assim no inferno… – disse o outro, rindo.
– Box ou maço, colega? – insistiu a funcionária.
– Vai maço – e entregou as moedas.
– O box tá só mais dez centavos, vai um?
– Ah, peraê – e, para o colega: – Tem mais cinco aê?
– Toma – e deixou a moeda fugir e rolar pelo chão.
Um senhor, que escolhia um pé de alface, se esforçou para correr atrás da danada, que não parava. Depois de uns metros, deu um pisão nos cinco centavos, como quem mata uma barata, abaixou e voltou trazendo o troféu:
– Olhe, moço – entregando ao jovem.
Ele pegou a moeda, deu as costas, pagou a caixa, abriu o box, caminhou e se preparou para pitar o branquinho, já quase na saída. Olhou para dentro e, já com o cigarro aceso, entre os lábios, viu o senhor da moeda indo ao caixa. Deu uma corridinha, arrastando os chinelos:
– Oww, senhor, valeu pela moeda, hein… boa noite aí.
A caixa olhou para mim, a próxima da fila, e disparou:
– Esse moleque nunca me falou bom dia. Tô é besta. Então só faltava um exemplo?
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